E tem também uma verdade...
fazia séculos que eu não pintava minhas unhas das mãos de vermelho. e unhas vermelhas para mim são emblemáticas. traduzem vida, rebeldia, tentativa, sobrevivência.
essa costumava ser a minha cordetodosempre, depois que minha mãe liberou e eu finalmente parei de roer unhas, nossa, era vermelho ever&ever. mas depois... depois que o tufão passou pela minha vida, eu meio que deixei tudo de lado, absolutamente tudo. cai no limbo, deixei de existir enquanto pessoa. vocês não têm idéia do quanto deixamos de existir cotidianamente. nem um fantasma eu era. apenas não-era.
e eu me arrastei com as minhas unhas mal feitas, com meu corpo molenga, com o meu cabelo desgrenhado, quem sabe assim eu conseguiria fugir de mim? o rosto disforme nunca conseguiu esconder a alma com todas as suas remendas. no fundo, eu continuava sendo a mesma, aquela que optava a cada manhã por morrer um pouco.
mesmo depois que a coisa mais linda nasceu, de quando em quando o soco, os blocos pesadíssimos de tristezas imemoriais me afundavam e nunca mais as minhas unhas viram e sentiram o quente vermelho.
e eis que hoje me encontro cansada e pasmada. pasmada porque estou cansada de realmente fazer algo. sim, porque antes, eu me cansava de não fazer, de não existir. comecei pela minha casa, terminei nas minhas mãos.
a casa cheira à limpeza.
as unhas reluzem, enfim, o tom vermelho.